Índice de vegetação: qual o melhor para o café?

NDRE café satélite

No monitoramento da cafeicultura com satélite, é de grande importância saber qual índice de vegetação utilizar e o momento ideal para obter informações mais precisas.


Os índices de vegetação fornecem informações valiosas sobre a lavoura em determinado momento do ciclo fenológico do café (repouso, florada, chumbinho, granação e maturação), podendo ser utilizados de forma combinada.


Dentre os índices indicados para o monitoramento da cafeicultura, o que mais tem se destacado, conforme mostram pesquisas acadêmicas, é o NDRE, sigla em inglês para Índice de Vegetação por Diferença Normalizada da Borda do Vermelho.


Veja neste artigo a importância deste índice de vegetação para o monitoramento remoto da cafeicultura e como você deve utilizá-lo. Boa leitura!


O que é o índice NDRE?


O NDRE (Normalized Difference Red Edge Index) é um índice de vegetação amplamente utilizado no sensoriamento remoto agrícola com imagens de satélite e drones.


Ele explora uma faixa espectral chamada Red Edge (borda do vermelho), localizada entre o vermelho visível e o infravermelho próximo.


Na prática, essa região do espectro é extremamente sensível à clorofila, o pigmento diretamente ligado à fotossíntese. 


Como a clorofila está fortemente associada ao estado nutricional da planta, principalmente ao Nitrogênio, o NDRE se tornou um dos melhores indicadores indiretos do “status nutricional” do cafeeiro.


Pesquisas clássicas já demonstravam que a região do Red Edge responde rapidamente a variações no teor de clorofila, com deslocamentos no padrão de reflectância conforme a folha se torna mais saudável ou entra em estresse.


Estudos posteriores confirmaram que essa faixa espectral apresenta alta correlação com o conteúdo de Nitrogênio foliar em diferentes culturas.


Foi a partir desses avanços que o NDRE foi formalmente proposto, sendo aplicado inicialmente para detectar estresse hídrico e nutricional em lavouras de algodão, e depois expandido para diversas culturas, incluindo o café.


Como é a fórmula do NDRE?


A fórmula do NDRE é simples e semelhante à do NDVI:


NDRE = (NIR – Red Edge) / (NIR + Red Edge)


Assim como o NDVI, seus valores variam entre -1 e 1. A diferença está no comportamento do índice em lavouras mais densas.


O NDRE consegue “enxergar” melhor o interior do dossel, sofrendo menos com o problema conhecido como saturação, que ocorre quando o NDVI deixa de responder ao aumento de biomassa e vigor vegetal em estágios mais avançados da cultura.


Na prática, isso significa que o NDRE entrega uma leitura mais estável e sensível em áreas de café bem desenvolvidas, permitindo identificar variações de vigor, nutrição e estresse com maior precisão.


Por que o NDRE é especialmente eficiente no café?


O cafeeiro possui folhas perenes, ricas em clorofila, e apresenta variações nutricionais e fisiológicas ao longo do ano.

Pequenas alterações no teor de Nitrogênio ou no metabolismo da planta costumam aparecer primeiro na faixa do Red Edge, antes mesmo de serem claramente visíveis no NDVI.


Diversos estudos aplicados à cafeicultura mostram que o NDRE apresenta melhor desempenho para:


  • detectar variações no teor de clorofila foliar;
  • mapear diferenças de vigor entre talhões;
  • identificar estresse precoce;
  • acompanhar fases reprodutivas;
  • discriminar estágios de maturação dos frutos.


Em experimentos com imagens de drones e satélites, o NDRE demonstrou maior sensibilidade para diferenciar áreas em diferentes estágios fisiológicos do café, especialmente no período pós-florada, quando há mistura de folhas jovens e folhas totalmente expandidas.


Além disso, pesquisas com sensores do satélite Sentinel-2 indicam forte correlação entre bandas Red Edge e índices derivados (NDRE e IRECI) com o conteúdo foliar de Nitrogênio em lavouras de café em escala de paisagem.


Fenologia do café e o uso prático do NDRE


O ciclo do cafeeiro é marcado por fases bem definidas, influenciadas por clima, disponibilidade hídrica e manejo. 

Neste sentido, o NDRE deve ser utilizado como uma ferramenta estratégica para acompanhar essas etapas ao longo da safra.


Com séries temporais de imagens, é possível:


  1. Identificar o fim do repouso e a indução floral: esse é um período crítico, em que o estresse hídrico controlado seguido de chuva ou irrigação define a florada principal. Alterações no NDRE ajudam a detectar a retomada da atividade fisiológica da planta;
  2. Acompanhar o desenvolvimento dos frutos: desde o estádio de “chumbinho” até a granação e maturação, o índice permite observar variações no vigor e na atividade fotossintética do dossel;
  3. Auxiliar no planejamento da colheita: a maturação irregular é um dos grandes desafios da cafeicultura. Estudos recentes mostram que índices derivados do Red Edge apresentam maior capacidade de discriminar áreas com diferentes níveis de maturação, apoiando decisões de colheita escalonada;
  4. Entender a bienalidade do café: embora o NDVI seja tradicionalmente usado para avaliar vigor geral, o NDRE complementa essa análise ao mostrar diferenças fisiológicas mais sutis entre anos de alta e baixa produção.


Esse acompanhamento garante que práticas como adubação, irrigação e tratos fitossanitários sejam realizadas no momento fisiológico mais adequado para a planta.


Bandas Red Edge do Sentinel-2 e sua importância


Os satélites Sentinel-2 possuem três bandas específicas de Red Edge (B5, B6 e B7), com resolução espacial de 20 metros. Essas bandas estão posicionadas exatamente na região de transição entre o vermelho e o infravermelho, tornando-se extremamente sensíveis à clorofila.

Sentinel-2 Red Edge

Elas respondem rapidamente a:


  • deficiências nutricionais, principalmente Nitrogênio;
  • início de estresse hídrico;
  • doenças que afetam o aparato fotossintético;
  • início de senescência foliar.


No café, essas respostas costumam aparecer no Red Edge antes mesmo de ficarem evidentes no NDVI. Por isso, essas bandas são a base para índices como NDRE e CCCI, considerados mais avançados para diagnóstico fisiológico da lavoura.


Como interpretar o NDRE na lavoura de café


A interpretação do NDRE deve sempre considerar o histórico da área e a época do ano.


De forma geral:


  • Valores mais altos indicam plantas vigorosas, com boa atividade fotossintética e maior teor de clorofila;
  • Quedas ao longo do tempo podem sinalizar estresse hídrico, deficiência nutricional, ataque de pragas ou problemas de manejo;
  • Manchas espaciais no mapa geralmente apontam problemas localizados, como falhas de irrigação, compactação do solo ou áreas com menor fertilidade.


Séries temporais são ainda mais poderosas, pois mostram tendências de recuperação ou degradação da lavoura ao longo das semanas e meses.


O NDRE não deve ser usado sozinho


Embora seja um dos índices mais completos para o café, o NDRE funciona melhor quando combinado com outros indicadores, a exemplo de dados climáticos.

No monitoramento profissional, a integração de índices é o que gera um diagnóstico realmente confiável.


Uma combinação prática e eficiente inclui:


  • NDVI para avaliar o vigor geral da vegetação;
  • NDRE para monitorar clorofila e nutrição;
  • NDWI para acompanhar o status hídrico;
  • NBR para identificar estresses mais severos.


Essa abordagem integrada permite entender não apenas “onde está o problema”, mas também qual é a provável causa, tornando o monitoramento remoto uma ferramenta estratégica para a tomada de decisão na cafeicultura moderna.


Conclusão


O NDRE se consolidou como o índice de vegetação mais indicado para o monitoramento do café por sua alta sensibilidade à clorofila e ao Nitrogênio, nutrientes diretamente ligados ao desempenho produtivo da lavoura.


Quando utilizado de forma contínua, aliado às bandas Red Edge do Sentinel-2 e combinado com outros índices, ele permite acompanhar o ciclo fenológico, antecipar problemas, otimizar o manejo e aumentar a eficiência técnica da produção.


Na prática, o NDRE transforma imagens de satélite em informação agronômica aplicável no campo, exatamente o que a cafeicultura de precisão precisa para produzir mais, com menos risco e maior sustentabilidade.


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