Como usar o NDVI na cafeicultura

NDVI cafeicultura

O NDVI (Índice de Vegetação por Diferença Normalizada) é um importante índice para o monitoramento da cafeicultura por meio do sensoriamento remoto com o uso de imagens de satélite.


Pesquisas mostram sua utilidade para avaliar a saúde, o vigor e o desenvolvimento das plantas, permitindo intervenções mais assertivas. 


Apontam ainda que o NDVI pode ser usado para monitorar o estado nutricional, identificar estresses hídricos, detectar infestações por pragas ou doenças, além de auxiliar na
estimativa de produtividade


Mas, para a sua eficácia, é necessário saber acompanhar as
fases fenológicas do cafeeiro arábica por meio do NDVI, o que possibilita maior ganho de produtividade e sustentabilidade da lavoura. Saiba mais neste artigo!


O que é o NDVI?


O
NDVI (Índice de Vegetação da Diferença Normalizada) é um índice de vegetação criado para acompanhar a saúde das plantas por meio da sua atividade fotossintética.


Desenvolvido em 1973 por quatro cientistas da Texas A&M University (Rouse Jr, Haas, Schell e Deering), o índice normaliza a diferença entre a reflexão da luz no infravermelho próximo (NIR) e no vermelho (Red), resultando em valores que variam de -1 a 1.


O cálculo é simples


NDVI = (NIR – Red) / (NIR + Red). 


Valores altos (próximos de 1) indicam vegetação densa e saudável; valores próximos de zero ou negativos apontam para solo exposto, água ou vegetação estressada. 


A saúde da planta é inferida porque a clorofila, pigmento essencial para a fotossíntese, absorve fortemente a luz vermelha e reflete a luz infravermelha. 


Assim, uma planta com atividade fotossintética vigorosa apresentará um NDVI mais elevado.


NDVI na cafeicultura: por que usar e benefícios


Na cafeicultura, o NDVI é utilizado como ferramenta de
Agricultura de Precisão que permite:


  • monitorar o vigor vegetal: identificar áreas da lavoura com crescimento desigual, possivelmente devido à deficiência nutricional, estresse hídrico ou compactação do solo;
  • acompanhar a sanidade: detectar precocemente pragas e doenças, que muitas vezes causam alterações na reflectância da folha antes de serem visíveis a olho nu;
  • avaliar danos: como demonstrado no estudo de Rodrigues et al. (2021), índices de vegetação como o NDVI podem ser usados para avaliar o impacto de eventos climáticos extremos, como chuvas de granizo, nas variedades de café;
  • estimar produtividade: trabalhos como o de Volpato et al. (2017) mostram a correlação entre índices de vegetação (NDVI e EVI) do sensor MODIS e variáveis do balanço hídrico, possibilitando modelos de estimativa de produtividade em escala regional;
  • mapear a variabilidade: o NDVI ajuda a identificar zonas de manejo diferenciado dentro de uma mesma área, permitindo aplicações localizadas de insumos, como demonstrado em estudos que correlacionam o índice com teores foliares de nitrogênio e parâmetros fitotécnicos.


Os benefícios são redução de custos com aplicações uniformes, aumento da eficiência no uso de recursos (água e fertilizantes), antecipação de problemas e suporte à tomada de decisão com base em dados objetivos.


A importância de monitorar as fases fenológicas


O cafeeiro arábica possui um ciclo fenológico bienal complexo, dividido em seis fases principais, desde a formação de gemas até a colheita e repouso (senescência).


Este ciclo é sensível a fatores climáticos como fotoperíodo e disponibilidade hídrica. Monitorar essas fases com o NDVI permite ao produtor:


  • identificar o fim do repouso e a indução floral: período crucial onde o estresse hídrico controlado seguido de irrigação ou chuva define a florada principal;
  • acompanhar o desenvolvimento dos frutos: desde o "chumbinho" até a granação e maturação;
  • determinar o momento da colheita: a maturação não uniforme é um desafio. Estudos como o de Martins et al. (2021) desenvolveram índices de vegetação específicos (como o Coffee Ripeness Index - CRI) a partir de imagens aéreas para monitorar a maturação dos frutos com mais precisão do que a inspeção visual, auxiliando no planejamento da colheita;
  • entender a bienalidade: o NDVI pode ajudar a visualizar e quantificar as diferenças de vigor vegetativo entre um ano de alta e um ano de baixa produção;


Acompanhar essas fases garante que as práticas de manejo (adubação, irrigação, pulverização) sejam aplicadas no momento fisiológico mais adequado para a planta.


Pesquisas mostram avanços do NDVI na cafeicultura


A ciência tem evoluído para superar as limitações do NDVI em culturas perenes como o café, onde a densidade da copa pode causar saturação do índice (valores param de aumentar mesmo com crescimento da biomassa). 


Uma
pesquisa em Minas Gerais concluiu que a utilização de imagens Sentinel-2 para obtenção do NDVI demonstrou ser uma forte ferramenta para mapear o potencial de produtividade do cafeeiro.


Pesquisas integraram o NDVI em modelos que utilizam também
dados meteorológicos e de solo para estimar a produtividade do café com alta precisão em escala regional e microrregional.


O
uso de imagens de satélites como o QUICKBIRD e, mais recentemente, drones equipados com câmeras multiespectrais, permite mapear parâmetros biofísicos (IAF, biomassa, diâmetro da copa) em nível de talhão, facilitando o manejo preciso.


Saturação do NDVI


No uso do NDVI na cafeicultura deve-se ter também atenção com a saturação, momento em que o índice se torna insensível ao aumento da biomassa vegetal a partir de certo estágio da planta, estabilizando num mesmo patamar, com pequena variação de valores.


Como usar o NDVI com o sistema Safra do Café


No sistema
Safra do Café é possível utilizar o NDVI a partir de imagens do sensor MSI/Sentinel-2AB, de alta resolução especial (10 metros) e temporal (nova imagem a cada 5 dias, a depender da cobertura de nuvens).


Para isso, basta apenas inserir a sua área de interesse no sistema, por meio de um arquivo .gpkg ou então desenhá-la no mapa interativo. Posteriormente, basta clicar em salvar dados e ir para a aba de monitoramento.


Veja no vídeo abaixo:


Análise temporal do NDVI


O
sistema Safra do Café permite ainda que você faça uma análise temporal do NDVI médio da sua área de produção, com possibilidade de acompanhamento de datas do ano de 2015 para os dias atuais. 


Assim, a plataforma processa automaticamente imagens de satélite históricas e atuais, gerando gráficos e mapas de NDVI para cada talhão ao longo do tempo.


Você visualiza a curva de NDVI, que deve refletir o ciclo fenológico da cultura. 


Quedas bruscas ou valores abaixo do esperado para a época indicam possíveis problemas (estresse hídrico, ataque de praga, dano físico).


Com base na análise visual, é possível direcionar vistorias de campo para áreas específicas, validar a necessidade de irrigação suplementar ou verificar a efetividade de um manejo aplicado.


O monitoramento é contínuo, permitindo comparar safras, avaliar o efeito de práticas de manejo e planejar a colheita com base no desenvolvimento da cultura.


NDVI Cafeicultura


Conclusão


O NDVI é uma ferramenta de
monitoramento contínuo na cafeicultura que traduz a "saúde" e o desenvolvimento da lavoura em dados objetivos e mapeados. 


Ao vincular esses dados à
fenologia do cafeeiro, você ganha um poderoso aliado para tomar decisões no momento certo, seja para corrigir um déficit nutricional, manejar a irrigação ou identificar pragas e doenças. 


Os avanços científicos e a integração em plataformas como o
Safra do Café possibilitam o acesso a essa tecnologia, essencial para quem deseja otimizar recursos e garantir a sustentabilidade do negócio diante dos desafios climáticos e de mercado.



Rozymario Bittencourt


Jornalista e analista de dados especializado em tecnologias do agronegócio, com foco em agricultura de precisão, sensoriamento remoto e ciência de dados aplicada à cafeicultura. É criador de Safra do Café.

Leia mais

safra do café
Por Rozymário Bittencourt 29 de novembro de 2025
Safra do Café é um sistema para prever a produtividade e mapear a variabilidade das lavouras de café com imagens de satélite e Machine Learning
tarifa café EUA
23 de novembro de 2025
O setor cafeeiro recebeu com alívio a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de revogar as tarifas de 40% sobre o café em grão não torrado.
café satélite
Por Rozymário Bittencourt 17 de novembro de 2025
Áreas de café podem ser monitoradas por satélite de forma gratuita, com imagens atualizadas a cada 5 dias. Veja um guia de como usar índices de vegetação.
café de origem
Por Rozymário Bittencourt 8 de novembro de 2025
No café de origem, existem dois tipos de registro de IG: a Indicação de Procedência (IP), ligada à reputação de uma região, e a Denominação de Origem (DO).
Mercado de café
Por Rozymário Bittencourt 8 de novembro de 2025
Os agentes do mercado do café monitoraram a possível exclusão do produto das tarifas extras impostas pelos EUA e as condições climáticas no Brasil.
Semana Internacional do Café
Por Rozymário Bittencourt 8 de novembro de 2025
Os resultados consolidam o Espírito Santo como potência na cafeicultura nacional de qualidade, demonstrando também a força crescente das mulheres no setor.
Cafeicultura no Brasil
Por Rozymário Bittencourt 5 de novembro de 2025
Veja como a cafeicultura vem passando por uma transição da gestão tradicional para a adoção de tecnologias avançadas da Cafeicultura de Precisão.
sensoriamento remoto na cafeicultura
Por Rozymário Bittencourt 4 de novembro de 2025
Sensoriamento remoto na cafeicultura: veja conceitos básicos, saiba quais são os índices espectrais e como interpretar imagens de satélite para monitorar a lavoura.
Café torrefacto
Por Rozymário Bittencourt 3 de novembro de 2025
Especialista defende a proibição do café torrefacto, método que adiciona açúcar na torra. Entenda por que essa técnica compromete a qualidade da bebida.
tecnologia cafeicultura
Por Rozymário Bittencourt 3 de novembro de 2025
O mercado de agricultura inteligente deve crescer para US$ 60,9 mil milhões até 2034, com a tecnologia a transformar setores como a cafeicultura.